30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo - Mo Daviau

Saudações, caros leitores, como vocês estão?

Após ter iniciado o ano com um ótimo livro - Até o Fim do Mundo -, esperava que a minha próxima leitura também tomasse os mesmos rumos em termos de boas qualidades, até mesmo pelo fato de sua sinopse dar indícios dessa possibilidade. Entretanto, acredito que fui com muita sede ao pote e acabei me decepcionando com 30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo, livro de estreia de Mo Daviau. 

Imagine poder viajar no tempo para assistir a qualquer grande show da história: os Beatles no Shea Stadium ou no telhado da Apple Records, o Nirvana em um bar minúsculo de Seattle ou Miles Davis no lendário clube Birdland. A norte-americana Mo Daviau transformou esse desejo em realidade no engenhoso 30 e poucos anos e uma máquina do tempo, uma espécie de cruzamento entre De volta para o futuro e Alta fidelidade protagonizado por Karl e Wayne, dois amigos de meia-idade que descobrem um meio de voltar no tempo para assistir a shows incríveis, e a ganhar dinheiro com o negócio. Tudo vai bem até que Wayne decide o óbvio: interferir no passado. Afinal, quem dispensaria a chance de reescrever uma ou outra linha da própria história? Movido a música e romance, 30 e poucos anos e uma máquina do tempo é uma espirituosa, e um tanto nostálgica, reflexão sobre sonhos, escolhas de vida e a passagem do tempo.
Ponto forte: Com a inteligência irreverente de um Nick Hornby, a sinceridade bem-humorada de um Gary Shteyngart e o charme de um filme de John Cusack, o título é uma leitura perfeita para um público saudoso da juventude perdida, repleto de referências musicais.


Nesta trama somos apresentados a uma dupla de amigos que se encontra em uma péssima fase de suas vidas. Karl, ex-músico e dono de um bar, encontra o buraco de minhoca por acidente enquanto procurava antigos coturnos comprados em 1991 em seu armário. Por um momento ele se viu sentado em um bar no passado, mas acaba retornando ao presente devido ao toque do seu celular. Intrigado com o ocorrido, ele confia a Wayne DeMint, um antigo amigo que frequentava seu bar e cientista da computação, a informação sobre a viagem no tempo, com isso, ele acaba programando um software que possibilitou a eles decidirem as coordenadas e as datas. Percebendo a arma que tinham em mãos, Karl adotou um sistema de regras onde o buraco só seria usado para visitar antigos shows de rock. Porém, não demorou muito para que tudo isso virasse um comércio e uma renda a mais para os dois. Tudo começa a dar errado quando Wayne passa a se comportar de forma estranha, pensando em sua vida e querendo mudar algo no passado: salvar John Lennon em 1980. 

Capa Estrangeira

Ei, aventureiro do tempo!

Quando o show terminar, VOCÊ TEM QUE VOLTAR PARA CASA!!!

INSTRUÇÕES
1. Abrir o aplicativo.
2. Selecionar RETURN.
3. A DATA, HORA e LOCALIZAÇÃO de seu retorno devem aparecer automaticamente (exemplo: 1/6/2012 19:30, data e hora atuais, esquina de Western com Milwaukee, CHICAGO, Illinois, EUA)*
4. Aperte o botão vermelho! ZUM! Você vai voltar rapidamente para casa!

*Não tente alterar suas coordenadas de retorno! Tentativas de alterar o programa resultarão em multa de US$1.000 e o banimento perpétuo.
Pág.: 15

A meu ver, o principal problema deste livro é a falta de uma maior exploração nos outros assuntos presentes no seu desenvolvimento. Entendo que a "música" tem um destaque na trama, mas a autora deixa isso TÃO EVIDENTE que chega a ser exaustivo para o leitor, pois a todo momento, literalmente, ela está retornando nesse ponto, o que deixou todo o contexto da viagem no tempo em segundo plano e sem a sua devida importância em certos trechos. Desta forma, a sensação que tive era de estar lendo biografias de bandas em um velório, uma vez que teve muitos momentos em que a história pedia uma maior seriedade e dramaticidade dos personagens, mas eles sempre acabavam conversando sobre shows e conjuntos musicais, mesmo tendo um amigo para salvar no ano de 980 e outros problemas a serem resolvidos.

Outro ponto falho é a inexistência de uma diversidade de dramas nos personagens, pois, o que percebi é que todos praticamente compartilham histórias de vida com características muito próximas, tendo como exemplo Karl e Wayne: duas pessoas que sofrem pelo seu passado conturbado, seja ele amoroso e/ou profissional, além de terem o dom da autodepreciação. Lena, uma astrofísica que ajudou Karl em seu problema, apresentou uma trajetória de vida interessante e uma personalidade marcada por momentos feministas, o que a deixou mais dura em relação aos homens. O mesmo ocorreu com Sahlil, dono do prédio em que o ex-músico mora, onde é possível notar sua ganância e as suas consequências. 

Apesar desses problemas, a leitura é conduzida em meio aos mistérios que vão surgindo, como um estranho e-mail que Karl recebeu contendo algumas informações sobre Lena e um misterioso Pós-A, além de possíveis consequências no presente de suas interações no passado e como irá ser feito o resgate de Wayne. A parte do buraco de minhoca e como se dá seu funcionamento foi bem explicada, possibilitando o entendimento até mesmo dos mais leigos no assunto. A melhor parte deste livro se encontra em suas últimas 100 páginas, pois são nelas que algumas reviravoltas acontecem e as coisas começam a azedar de fato. 

Autora
Então eu soube aonde Lena tinha ido. Ela estava de volta à noite sobre a qual nunca queria falar, e algo que eu disse uma vez para Wayne surgiu em minha cabeça: "Você quer ser um super-herói? Vista sua capa e voe."
Pág.: 236

A trama é narrada em primeira pessoa e sob o ponto de vista de Karl. Desta forma, não é tão difícil perceber o quanto ele é egoísta e um completo babaca depressivo que vive lamentando seu passado. A escrita da autora foi uma das escassas boas qualidades presentes no livro, pois sua estrutura contribuiu para a fluidez da leitura, mesmo ela tendo os problemas supracitados. Acredito que algumas pessoas irão gostar de 30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo, até mesmo pelo contexto nostálgico, mas a meu ver a autora exagerou nesse sentido. 

A diagramação está com um ótimo espaçamento entre linhas e um agradável tamanho de fonte. Na edição temos páginas amareladas, títulos em alto relevo e uma bela capa um tanto quanto saudosa da época em que tínhamos que rebobinar as fitas cassete e com isso acabávamos usando objetos diferentes dos tradicionais, como uma caneta. A tradução foi feita por Edmundo Barreiros e não encontrei erros aparentes na revisão.